sábado, 22 de agosto de 2009
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Cândida
A peça - texto de Bernard Shaw - tem Bia Seidl como atriz convidada.
Dirigido por Zé Henrique de Paula, o Núcleo Experimental chamou atenção já no seu primeiro trabalho, "R & J", releitura despojada e vibrante de "Romeu e Julieta", indicado no ano retrasado para o Prêmio Femsa de Teatro Jovem nas categorias espetáculo, ator e diretor. Também tinha muitas qualidades o segundo espetáculo do núcleo, Mojo. Mais uma vez sob direção de Zé Henrique e direção musical de Fernanda Maia, indicada ao Prêmio Shell de música por "R & J", o Núcleo apresenta a nova criação do grupo, "Cândida", com texto de Bernard Shaw – e Bia Seidl como atriz convidada.
Quem conhece a dramaturgia desse irlandês, autor de Pigmaleão e Major Bárbara, para ficar com duas peças encenadas no Brasil, sabe que não é preciso justificar a escolha do texto. "Nossa, é um primor de bem escrito e quanto mais a gente estuda, mais camadas de significado descobre", diz Zé Henrique. Porém, a escolha permite ainda uma continuidade de pesquisa. "Eram adolescentes os personagens de "R & J" que viviam aquele momento em que afloram a sexualidade e a afetividade. Já Mojo coloca em cena o homem que se auto-afirma, é adulto, mas não maduro", diz Zé Henrique.
"Cândida" flagra uma fase adiante. O personagem vivido por Sérgio Mastropasqua, o marido da Cândida (Bia Seidl) tem 40 anos, já superou a fase da auto-afirmação. "É o adulto que já se estabeleceu, tem mulher, filhos, profissão. Mas de repente ele descobre que pode voltar atrás, tudo o que construiu pode ruir." E o elemento desestabilizador será um jovem poeta vivido por Thiago Carreira, um dos atores de "R & J".
É a partir do casamento que Bernard Shaw constrói sua trama de múltiplas facetas. Na mais visível, os conflitos do triângulo amoroso. "Uma das grandes questões da peça se coloca para Cândida: o que completa mais a mulher? Um marido provedor, um porto seguro, com quem ela vive uma rotina que não é necessariamente entendiante, mas serena, um bom alicerce? Ou viver a aventura de compartilhar momentos intensos com um jovem poeta de 18 anos, com quem ela tem "epifanias na relva", como ela diz, e perde o fôlego com suas declarações de amor?"
Talvez a pista esteja na vida do autor. Bernard Shaw foi casado com a mesma mulher por mais de 50 anos. "Ele se casou tarde e dizia que nenhum ser humano deve unir-se a outro no auge da paixão, pois quando ela esfria corre-se o risco de descobrir estar com a pessoa errada." Mas há outros embates em questão, além de paixão e amor. Um deles se dá entre esse marido, um clérigo socialista, e seu sogro, vivido por João Bourbonnais, um burguês rico, defensor do capitalismo. "Ele é aquele homem que trabalhou muito, enriqueceu, e por isso acha que tem todo o direito de investir no seu conforto, enquanto seu genro, Morell, é um reverendo que luta contra a desigualdade social."
Zé Henrique chama de "infernal" a dramaturgia de Shaw. "Ele é capaz de mergulhar em profundidade e, no momento certo, inserir alívios cômicos." Prosérpina, interpretada por Fernanda Maia, secretária do pastor, é responsável por alguns desses alívios. "Ela é sua fã ardorosa e tem linhas ligeiramente farsescas." A atriz, como todo o elenco, que tem ainda Thiago Ledier como assistente do pastor, contou com a ajuda da preparadora corporal Inês Aranha, que integra o grupo desde o primeiro trabalho. "Ela não vem de vez em quando dar uns palpites, está sempre em sala de ensaio, cria junto e tem grande participação na linguagem que procuramos desenvolver, centrada no ator." Detalhe interessante para quem conhece os geniais prefácios de Shaw: o grupo decidiu colocar o desta peça em cena, à guisa de prólogo.
Jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba
Dirigido por Zé Henrique de Paula, o Núcleo Experimental chamou atenção já no seu primeiro trabalho, "R & J", releitura despojada e vibrante de "Romeu e Julieta", indicado no ano retrasado para o Prêmio Femsa de Teatro Jovem nas categorias espetáculo, ator e diretor. Também tinha muitas qualidades o segundo espetáculo do núcleo, Mojo. Mais uma vez sob direção de Zé Henrique e direção musical de Fernanda Maia, indicada ao Prêmio Shell de música por "R & J", o Núcleo apresenta a nova criação do grupo, "Cândida", com texto de Bernard Shaw – e Bia Seidl como atriz convidada.
Quem conhece a dramaturgia desse irlandês, autor de Pigmaleão e Major Bárbara, para ficar com duas peças encenadas no Brasil, sabe que não é preciso justificar a escolha do texto. "Nossa, é um primor de bem escrito e quanto mais a gente estuda, mais camadas de significado descobre", diz Zé Henrique. Porém, a escolha permite ainda uma continuidade de pesquisa. "Eram adolescentes os personagens de "R & J" que viviam aquele momento em que afloram a sexualidade e a afetividade. Já Mojo coloca em cena o homem que se auto-afirma, é adulto, mas não maduro", diz Zé Henrique.
"Cândida" flagra uma fase adiante. O personagem vivido por Sérgio Mastropasqua, o marido da Cândida (Bia Seidl) tem 40 anos, já superou a fase da auto-afirmação. "É o adulto que já se estabeleceu, tem mulher, filhos, profissão. Mas de repente ele descobre que pode voltar atrás, tudo o que construiu pode ruir." E o elemento desestabilizador será um jovem poeta vivido por Thiago Carreira, um dos atores de "R & J".
É a partir do casamento que Bernard Shaw constrói sua trama de múltiplas facetas. Na mais visível, os conflitos do triângulo amoroso. "Uma das grandes questões da peça se coloca para Cândida: o que completa mais a mulher? Um marido provedor, um porto seguro, com quem ela vive uma rotina que não é necessariamente entendiante, mas serena, um bom alicerce? Ou viver a aventura de compartilhar momentos intensos com um jovem poeta de 18 anos, com quem ela tem "epifanias na relva", como ela diz, e perde o fôlego com suas declarações de amor?"
Talvez a pista esteja na vida do autor. Bernard Shaw foi casado com a mesma mulher por mais de 50 anos. "Ele se casou tarde e dizia que nenhum ser humano deve unir-se a outro no auge da paixão, pois quando ela esfria corre-se o risco de descobrir estar com a pessoa errada." Mas há outros embates em questão, além de paixão e amor. Um deles se dá entre esse marido, um clérigo socialista, e seu sogro, vivido por João Bourbonnais, um burguês rico, defensor do capitalismo. "Ele é aquele homem que trabalhou muito, enriqueceu, e por isso acha que tem todo o direito de investir no seu conforto, enquanto seu genro, Morell, é um reverendo que luta contra a desigualdade social."
Zé Henrique chama de "infernal" a dramaturgia de Shaw. "Ele é capaz de mergulhar em profundidade e, no momento certo, inserir alívios cômicos." Prosérpina, interpretada por Fernanda Maia, secretária do pastor, é responsável por alguns desses alívios. "Ela é sua fã ardorosa e tem linhas ligeiramente farsescas." A atriz, como todo o elenco, que tem ainda Thiago Ledier como assistente do pastor, contou com a ajuda da preparadora corporal Inês Aranha, que integra o grupo desde o primeiro trabalho. "Ela não vem de vez em quando dar uns palpites, está sempre em sala de ensaio, cria junto e tem grande participação na linguagem que procuramos desenvolver, centrada no ator." Detalhe interessante para quem conhece os geniais prefácios de Shaw: o grupo decidiu colocar o desta peça em cena, à guisa de prólogo.
Jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba
domingo, 9 de agosto de 2009
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Cândida
Cândida(o), o espetáculo.
“Cândido, adj. Alvo; (fig.) sincero; puro; ingênuo; inocente.”
Através desse conceito breve de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, pode-se chegar a um conceito (também breve?) acerca de “Cândida”, peça teatral de Bernard Shaw , que encerrou temporada no último domingo (2/agosto/9) no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo; portanto, sendo breve(?) , pode-se dizer que nesta montagem – inteligentemente dirigida por Zé Henrique de Paula – manifestou-se o tom ‘alvo’, ‘sincero’, presente nas impecáveis atuações, no ritmo cênico e na habilidosa e coreografada marcação das cenas, as quais descrevem o movimento de uma ritmada dança – sem direito à disritmia – e a beleza imagética, estonteante, quase inexplicável, presente nas pinturas.
O espetáculo, embora de arte dramática, consegue envolver o espectador numa atmosfera pictórica desde o início, quando a descrição do ambiente em que transcorrerão as ações é feita meticulosamente. Que desafio! Desafio ao diretor e ao elenco (diga-se de passagem afinadísssimo) que – astuta e talentosamente – dá conta de um texto perspicaz, o qual vai se revelando oportunamente à platéia embevecida pelas saborosas surpresas.
Sendo breve(?), neste desfecho, devo dizer que se torna dispensável tecer elogios individualizados a um elenco tão integrado e comprometido na Arte de representar em conjunto: foi um passar a bola, ou melhor, a fala ao colega de cena num gozo que só (foi) e é possível ser atingido coletiva,não individualmente, pois aí passa a ser (perdoem-me o termo) masturbação e não celebração do Belo que o autor compôs, o diretor propôs e o elenco transpôs. Portanto (ainda que não breve), Bravo a todos dessa montagem.
(LUIZ CARLOS LÍBANO*)
“Cândido, adj. Alvo; (fig.) sincero; puro; ingênuo; inocente.”
Através desse conceito breve de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, pode-se chegar a um conceito (também breve?) acerca de “Cândida”, peça teatral de Bernard Shaw , que encerrou temporada no último domingo (2/agosto/9) no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo; portanto, sendo breve(?) , pode-se dizer que nesta montagem – inteligentemente dirigida por Zé Henrique de Paula – manifestou-se o tom ‘alvo’, ‘sincero’, presente nas impecáveis atuações, no ritmo cênico e na habilidosa e coreografada marcação das cenas, as quais descrevem o movimento de uma ritmada dança – sem direito à disritmia – e a beleza imagética, estonteante, quase inexplicável, presente nas pinturas.
O espetáculo, embora de arte dramática, consegue envolver o espectador numa atmosfera pictórica desde o início, quando a descrição do ambiente em que transcorrerão as ações é feita meticulosamente. Que desafio! Desafio ao diretor e ao elenco (diga-se de passagem afinadísssimo) que – astuta e talentosamente – dá conta de um texto perspicaz, o qual vai se revelando oportunamente à platéia embevecida pelas saborosas surpresas.
Sendo breve(?), neste desfecho, devo dizer que se torna dispensável tecer elogios individualizados a um elenco tão integrado e comprometido na Arte de representar em conjunto: foi um passar a bola, ou melhor, a fala ao colega de cena num gozo que só (foi) e é possível ser atingido coletiva,não individualmente, pois aí passa a ser (perdoem-me o termo) masturbação e não celebração do Belo que o autor compôs, o diretor propôs e o elenco transpôs. Portanto (ainda que não breve), Bravo a todos dessa montagem.
(LUIZ CARLOS LÍBANO*)
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