sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
domingo, 21 de dezembro de 2008
Falsa Loura 02/07/2008
Linda e talentosa, Rosanne Mulholland ilumina o contundente retrato da contradição de classes no Brasil assinado por Carlos Reichenbach
Por: Rodrigo Carreiro
Os primeiros 10 minutos de “Falsa Loura” (Brasil, 2008) nos apresentam a uma mulher linda e oca. Dona de um corpo milimetricamente perfeito, Silmara (Rosanne Mulholland) tem total consciência do terremoto que provoca ao desfilar diante de homens e mulheres. Por causa desse corpaço, ela age de forma arrogante e antipática com as colegas da fábrica onde trabalha, como operária. Só usa vestidos curtos, blusas transparentes, calças coladas. Fala alto, gesticula muito, tem comportamento extravagante. A palavra “prostituta” já começa a rondar na boca de vizinhos e amigos, desconfiados de que ela esteja fazendo programa para subir na vida. Para o espectador, uma questão paira no ar: como o cineasta Carlos Reichenbach vai conseguir manter a platéia interessada em acompanhar, durante 103 minutos, a vida de uma pessoa tão insuportável, tão intragável, tão fútil?
Acontece que é tudo máscara. Assim que Silmara entra em casa, onde vive com o pai (João Bourbonnais), um ex-presidiário desempregado que tem o rosto deformado, aprendemos que ela tem outro lado, bem mais agradável. Ela é uma menina doce, responsável, carinhosa, que venera um popular cantor romântico (Maurício Mattar) e usa a máscara de “vagabunda” como proteção contra um ambiente hostil. Em resumo, uma jovem suburbana normal, que alimenta sonhos de ascendência social, baseando-se no único atributo que reconhecidamente possui: o corpo, algo que – ela faz questão de avisar – não está à venda. A personagem bem construída e multifacetada, favorecida pela luminosa interpretação da atriz brasiliense Rosanne Mulholland, é a peça de resistência do décimo-quinto filme do veterano Reichenbach.
“Falsa Loura” funciona em duas camadas: como excelente estudo de personagem e como documento contundente da complexa e conflituosa relação de classes no Brasil contemporâneo – uma relação marcada por preconceitos velados e atitudes assistencialistas. É só prestar atenção em como agem os integrantes da elite econômica, durante os raros contatos que Silmara trava com elas. São educados e atenciosos, mas não parecem perceber que por baixo da atitude arrogante existe um coração, uma pessoa de carne e osso, que demanda atenção e afeto como qualquer um. De fato, são poucos os longas-metragens contemporâneos que conseguem estabelecer tão bem – e de forma absolutamente crítica – as contradições desta relação de classes. “Falsa Loura” é, sem dúvida, um filme político, mas passa sua mensagem sem engajamento ou panfletarismo, duas pragas que sempre bateram ponto em produções nacionais de teor político.
Veterano formado na Boca do Lixo, Reichenbach sabe que o cinema político mais eficiente não é aquele que grita, mas o que sussurra, inserindo sua reflexão dentro de um enredo sólido e centrado em personagens consistentes. “Falsa Loura” faz parte de um conjunto de seis roteiros que o diretor rascunhou, todos centrados em garotas da periferia. Uma das muitas virtudes do filme é que a visão de Reichenbach sobre o subúrbio não é fatalista, espantada ou curiosa. O diretor não olha para a classe C de cima para baixo, como se espiasse um zoológico humano. Seu olhar é espontâneo, natural, despido de preconceitos. Revela interesse genuíno pelo elemento humano que existe nos moradores humildes. Esta visão contamina, positivamente, o trabalho de direção de arte e fotografia. As locações (a casa, a fábrica, a boate) não parecem ter sido construídas em estúdio, algo tão comum nesse tipo de filme. Aqueles lugares parecem ter estado ali desde sempre, as paredes gastas, cheias de poeira e fuligem.
Reichenbach mostra desenvoltura na concepção de toda a galeria de personagens importantes. Há pelo menos uma dúzia deles, e todos possuem tridimensionalidade real, incluindo o jovem cantor de rock (Cauã Reymond) e o ídolo popular (Mattar), dois dos homens com quem Silmara se envolve. No geral, aliás, as atuações parecem bem eficientes, embora talvez meio desleixadas em alguns momentos, em que os atores interpretam meio tom acima do padrão naturalista estabelecido pelas produções brasileiras contemporâneas de mesmo pedigree, caso de “Antônia” (tanto o longa quanto a série de TV) e da comédia carioca “Bendito Fruto”.
O bom roteiro também consegue dar conta, com inteligência, das contradições, desejos, ambições, sonhos e carências da protagonista, elemento enfatizado pelo figurino (botas, roupas, cabelos, etc.). Neste item em particular, Reichenbach ganha a colaboração preciosa de Rosanne Mulholland, absolutamente perfeita no papel. A atuação magnética da brasiliense, cheia de garra e paixão, não deixa pistas de sua origem (ela é oriunda da elite de Brasília e filha de ex-reitor da UnB) e arrasa os corações dos homens na platéia. A cena de nudez perto do final, ousada e nada gratuita, passa longe da vulgaridade que se poderia esperar de um filme tecido por cineasta da velha Boca do Lixo. Esta cena culmina com um breve diálogo de humor sutil, emoldurado por uma tela completamente às escuras – se o filme quisesse se aproveitar do corpo prefeito de Silmara, como fazem os homens que chegam perto dela, seria fácil manter a luz acesa.
A direção de Reichenbach, clássica, chama a atenção pela discrição e pela economia. As tomadas são longas, e o cineasta nunca abusa de recursos narrativos como closes e movimentos de câmera sofisticados para sublinhar o tom emocional de certos momentos. Ele narra tudo com calma, sem pressa. Há quantidade generosa de trechos musicais (o sonho de Silmara com o ídolo romântico, caminhando sobre um mar de tecido e papel celofane, parece roubado de um filme de Fellini, talvez “Noites de Cabíria” ou “Amarcord”) e influência evidente do mestre Valerio Zurlini, tanto na estética quanto na temática – de certa forma, não seria absurdo ver “Falsa Loura” como uma variação contemporânea e tupiniquim da obra-prima “A Moça com a Valise” (1961). A seqüência em que Silmara e o ídolo romântico dançam de rosto colado, à beira da piscina, é uma óbvia referência ao clássico italiano. Além disso, o filme brasileiro projeta a mesma sensação de melancolia, de tristeza contida e silenciosa, eternizada pela linda tomada que encerra a projeção, com um dos raros closes da protagonista. Ela sofre com a piada cósmica que fez os piores temores a respeito dela virarem realidade, sem que se desse conta disso. Belo filme.
- Falsa Loura (Brasil, 2008)Direção: Carlos ReichenbachElenco: Rosanne Mulholland, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Cauã Reymond Duração: 103 minutos
Linda e talentosa, Rosanne Mulholland ilumina o contundente retrato da contradição de classes no Brasil assinado por Carlos Reichenbach
Por: Rodrigo Carreiro
Os primeiros 10 minutos de “Falsa Loura” (Brasil, 2008) nos apresentam a uma mulher linda e oca. Dona de um corpo milimetricamente perfeito, Silmara (Rosanne Mulholland) tem total consciência do terremoto que provoca ao desfilar diante de homens e mulheres. Por causa desse corpaço, ela age de forma arrogante e antipática com as colegas da fábrica onde trabalha, como operária. Só usa vestidos curtos, blusas transparentes, calças coladas. Fala alto, gesticula muito, tem comportamento extravagante. A palavra “prostituta” já começa a rondar na boca de vizinhos e amigos, desconfiados de que ela esteja fazendo programa para subir na vida. Para o espectador, uma questão paira no ar: como o cineasta Carlos Reichenbach vai conseguir manter a platéia interessada em acompanhar, durante 103 minutos, a vida de uma pessoa tão insuportável, tão intragável, tão fútil?
Acontece que é tudo máscara. Assim que Silmara entra em casa, onde vive com o pai (João Bourbonnais), um ex-presidiário desempregado que tem o rosto deformado, aprendemos que ela tem outro lado, bem mais agradável. Ela é uma menina doce, responsável, carinhosa, que venera um popular cantor romântico (Maurício Mattar) e usa a máscara de “vagabunda” como proteção contra um ambiente hostil. Em resumo, uma jovem suburbana normal, que alimenta sonhos de ascendência social, baseando-se no único atributo que reconhecidamente possui: o corpo, algo que – ela faz questão de avisar – não está à venda. A personagem bem construída e multifacetada, favorecida pela luminosa interpretação da atriz brasiliense Rosanne Mulholland, é a peça de resistência do décimo-quinto filme do veterano Reichenbach.
“Falsa Loura” funciona em duas camadas: como excelente estudo de personagem e como documento contundente da complexa e conflituosa relação de classes no Brasil contemporâneo – uma relação marcada por preconceitos velados e atitudes assistencialistas. É só prestar atenção em como agem os integrantes da elite econômica, durante os raros contatos que Silmara trava com elas. São educados e atenciosos, mas não parecem perceber que por baixo da atitude arrogante existe um coração, uma pessoa de carne e osso, que demanda atenção e afeto como qualquer um. De fato, são poucos os longas-metragens contemporâneos que conseguem estabelecer tão bem – e de forma absolutamente crítica – as contradições desta relação de classes. “Falsa Loura” é, sem dúvida, um filme político, mas passa sua mensagem sem engajamento ou panfletarismo, duas pragas que sempre bateram ponto em produções nacionais de teor político.
Veterano formado na Boca do Lixo, Reichenbach sabe que o cinema político mais eficiente não é aquele que grita, mas o que sussurra, inserindo sua reflexão dentro de um enredo sólido e centrado em personagens consistentes. “Falsa Loura” faz parte de um conjunto de seis roteiros que o diretor rascunhou, todos centrados em garotas da periferia. Uma das muitas virtudes do filme é que a visão de Reichenbach sobre o subúrbio não é fatalista, espantada ou curiosa. O diretor não olha para a classe C de cima para baixo, como se espiasse um zoológico humano. Seu olhar é espontâneo, natural, despido de preconceitos. Revela interesse genuíno pelo elemento humano que existe nos moradores humildes. Esta visão contamina, positivamente, o trabalho de direção de arte e fotografia. As locações (a casa, a fábrica, a boate) não parecem ter sido construídas em estúdio, algo tão comum nesse tipo de filme. Aqueles lugares parecem ter estado ali desde sempre, as paredes gastas, cheias de poeira e fuligem.
Reichenbach mostra desenvoltura na concepção de toda a galeria de personagens importantes. Há pelo menos uma dúzia deles, e todos possuem tridimensionalidade real, incluindo o jovem cantor de rock (Cauã Reymond) e o ídolo popular (Mattar), dois dos homens com quem Silmara se envolve. No geral, aliás, as atuações parecem bem eficientes, embora talvez meio desleixadas em alguns momentos, em que os atores interpretam meio tom acima do padrão naturalista estabelecido pelas produções brasileiras contemporâneas de mesmo pedigree, caso de “Antônia” (tanto o longa quanto a série de TV) e da comédia carioca “Bendito Fruto”.
O bom roteiro também consegue dar conta, com inteligência, das contradições, desejos, ambições, sonhos e carências da protagonista, elemento enfatizado pelo figurino (botas, roupas, cabelos, etc.). Neste item em particular, Reichenbach ganha a colaboração preciosa de Rosanne Mulholland, absolutamente perfeita no papel. A atuação magnética da brasiliense, cheia de garra e paixão, não deixa pistas de sua origem (ela é oriunda da elite de Brasília e filha de ex-reitor da UnB) e arrasa os corações dos homens na platéia. A cena de nudez perto do final, ousada e nada gratuita, passa longe da vulgaridade que se poderia esperar de um filme tecido por cineasta da velha Boca do Lixo. Esta cena culmina com um breve diálogo de humor sutil, emoldurado por uma tela completamente às escuras – se o filme quisesse se aproveitar do corpo prefeito de Silmara, como fazem os homens que chegam perto dela, seria fácil manter a luz acesa.
A direção de Reichenbach, clássica, chama a atenção pela discrição e pela economia. As tomadas são longas, e o cineasta nunca abusa de recursos narrativos como closes e movimentos de câmera sofisticados para sublinhar o tom emocional de certos momentos. Ele narra tudo com calma, sem pressa. Há quantidade generosa de trechos musicais (o sonho de Silmara com o ídolo romântico, caminhando sobre um mar de tecido e papel celofane, parece roubado de um filme de Fellini, talvez “Noites de Cabíria” ou “Amarcord”) e influência evidente do mestre Valerio Zurlini, tanto na estética quanto na temática – de certa forma, não seria absurdo ver “Falsa Loura” como uma variação contemporânea e tupiniquim da obra-prima “A Moça com a Valise” (1961). A seqüência em que Silmara e o ídolo romântico dançam de rosto colado, à beira da piscina, é uma óbvia referência ao clássico italiano. Além disso, o filme brasileiro projeta a mesma sensação de melancolia, de tristeza contida e silenciosa, eternizada pela linda tomada que encerra a projeção, com um dos raros closes da protagonista. Ela sofre com a piada cósmica que fez os piores temores a respeito dela virarem realidade, sem que se desse conta disso. Belo filme.
- Falsa Loura (Brasil, 2008)Direção: Carlos ReichenbachElenco: Rosanne Mulholland, Djin Sganzerla, João Bourbonnais, Cauã Reymond Duração: 103 minutos
Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo
Crítica dos espetáculos
Espetáculo: SENHORA DOS AFOGADOS
SENHORA DOS AFOGADOS: UM NELSON RODRIGUES (SUB)VERTIDO BUARQUIAMENTE
Último espetáculo da 23° edição do Festival de Teatro do Vale do Paraíba. Ainda
bem, para nós todos que acompanhamos o festival, em seus dez dias de intensa atividade,
termos tido oportunidade de assistir a tão belo e surpreendente espetáculo. Trata-se, em
qualquer dúvida, de um dos mais belos momentos do festival.
Ao ser avisado que mais um espetáculo com texto de Nelson Rodrigues seria
apresentado fiquei inquieto. Minha apreensão aumentou quando soube que se tratava de
Senhora dos afogados. Afinal, mesmo não apreciando o autor, havia assistido
recentemente duas vezes a montagem do mestre Antunes Filho... Muitas imagens daquela
montagem – apresentada pelo CPT, no Teatro Anchieta, de São Paulo e no Festival
Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – faziam-se, ainda, presentes em mim.
Ao entrar no Cine Santana, em 22/11, para assistir à montagem do espetáculo
quatro focos de luz iluminam igual número de cadeiras, sobre as quais repousa um portacírio,
do qual se esvai, na forma de fumaça, alguma espécie de incenso. Portanto, são
quatro vezes quatro: imagem repleta de simbologia, e, reparei, fascinava a muitos que se
encontravam n platéia. O criador desta primeira imagem e de várias outras surpreendentes
é o diretor do espetáculo Zé Henrique de Paula. Fora do palco, mas a ele colado, no
espaço, se houvesse, a que se chama fosso de orquestra, duas musicistas: Fernanda Maia
(piano elético) e Kalyne Valente (violoncello).
Lembrando as magistrais procissões de Antunes Filho, mas sem nada dever-lhes ou a
elas atrelarem-se, o grande elenco forma um féretro para acompanhar Clarinha, uma das
filhas dos Drummond recentemente morta. O encontro entre os participantes deste
féretro: o coro dos vizinhos com Dona Eduarda, a mãe e Moema, a filha ocorre com o canto
de Pedaço de mim. A junção da imagem do começo com o canto (que, basicamente, se
caracterizara no leitmotiv da obra) denota a grande obra que se assistirá. Se no texto
original Nelson Rodrigues fala em personagens hieráticas – e do mesmo modo como Antunes
Filho já fizera, desde Paraíso zona norte –, na encenação de Zé Henrique de Paula somamse
a esse caráter hierático, o marmóreo e o grotesco.
Os desenhos de cena são clássicos e requintados. Tudo parece preparado para unir
deslocamentos e enquadramentos da cena às músicas cantadas às interpretação do
conjunto de atores – formado por vinte e um integrantes, preparados competentemente
pelas hábeis mãos de Inês Aranha – no sentido de contrapor-se à fala de Dona Eduarda a
Moema, segundo a qual: “Estar com você é a pior forma de estar sozinha.” Os quatro
atores que fazem os vizinhos, que também correspondem aos corifeus do coro maior: Diana
Troper, Fabio Redkowicz, Paulo Bueno, Thiago Ledier são grotescos, anti melífluos (talvez
por ALEXANDRE MATE
Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo
Nelson Rodrigues dissesse: espécie de câncer na forma de gente...) são belos, sobretudo
Diana Troper.
O magistral trabalho de escolha da trilha e o seu cantar pelos atores do elenco,
entre o climático emocional e determinadas alusões épicas, ficou a cargo de Fernanda
Maia. A seleção das músicas, basicamente amparada em Chico Buarque de Hollanda,
apresenta-se no canto dos atores sempre próximo daquilo que talvez se pudesse nomear:
como uma oitava acima. O canto mostra o paroxismo sufocante da situação vivida pelas
personagens. Realmente, trata-se de um belíssimo trabalho que redimensiona o texto
rodrigueano.
Outro ponto absolutamente destacado é o trabalho de interpretação. Se é sempre
bom ver João Bourbonnais em cena, como Misael e como cantor é melhor ainda. Trata-se
de um grande momento do ator. A jovem atriz Marcella Piccin, tem uma aparência frágil,
mas se agiganta em cena. As cenas entre a filha e a mãe, apresentada por Einat Falbel,
caracteriza-se em um belo duelo: do canto à intensidade dramática. Marcelo Góes
incorpora-se à boa composição do quarteto protagônico, ao qual se soma Paulo Carreira,
também excelente cantor.
Não se sabe se sempre, mas, a partir de certo momento, as personagens aparecem
descalças. As pessoas com quem conversei após o espetáculo, assim como eu mesmo, não
saberiam dizer se as personagens aparecem descalças desde o início... Claro, muito há a
olhar... Moema, depois de todas as mortes acontecidas aparece de traje branco, com
sapatos da mesma cor. O descalçamento dos pés, é seguro, deve conter alguma metáfora,
mas àquela altura (a da percepção disso), parafraseando Drummond: “(...) teu sapato de
diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva
do tempo.”
No geral, tanto Inês Aranha como Zé Henrique de Paula cuidaram de todos os atores:
há unidade e densa mistura de realismo e teatralidade em suas composições. As
prostitutas, entretanto, precisam alguma revisitação. Algumas delas praticam ações que
destoam do caráter clássico a partir do qual a obra foi composta. Algumas prostitutas
relacionam-se algumas vezes de modo meio débil. Para que olhar a roupa de baixo quando
Dona Eduarda é levada para junto delas? Por que duas delas ficam dobrando lençóis ou
coisa assim durante uma cena? Trata-se de ações inúteis, penso! Melhor seria se elas
cuidassem de si: de seu corpo, de suas roupas.
Trata-se de um espetáculo de acertos que toma Nelson Rodrigues para (sub)vertê-lo
buarquiamente. Que o espetáculo consiga ainda muitos espaços de apresentação e muitos
processos de troca com a platéia.
Alexandre Mate
Professor e pesquisador de teatro
26/11/2008
Crítica dos espetáculos
Espetáculo: SENHORA DOS AFOGADOS
SENHORA DOS AFOGADOS: UM NELSON RODRIGUES (SUB)VERTIDO BUARQUIAMENTE
Último espetáculo da 23° edição do Festival de Teatro do Vale do Paraíba. Ainda
bem, para nós todos que acompanhamos o festival, em seus dez dias de intensa atividade,
termos tido oportunidade de assistir a tão belo e surpreendente espetáculo. Trata-se, em
qualquer dúvida, de um dos mais belos momentos do festival.
Ao ser avisado que mais um espetáculo com texto de Nelson Rodrigues seria
apresentado fiquei inquieto. Minha apreensão aumentou quando soube que se tratava de
Senhora dos afogados. Afinal, mesmo não apreciando o autor, havia assistido
recentemente duas vezes a montagem do mestre Antunes Filho... Muitas imagens daquela
montagem – apresentada pelo CPT, no Teatro Anchieta, de São Paulo e no Festival
Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – faziam-se, ainda, presentes em mim.
Ao entrar no Cine Santana, em 22/11, para assistir à montagem do espetáculo
quatro focos de luz iluminam igual número de cadeiras, sobre as quais repousa um portacírio,
do qual se esvai, na forma de fumaça, alguma espécie de incenso. Portanto, são
quatro vezes quatro: imagem repleta de simbologia, e, reparei, fascinava a muitos que se
encontravam n platéia. O criador desta primeira imagem e de várias outras surpreendentes
é o diretor do espetáculo Zé Henrique de Paula. Fora do palco, mas a ele colado, no
espaço, se houvesse, a que se chama fosso de orquestra, duas musicistas: Fernanda Maia
(piano elético) e Kalyne Valente (violoncello).
Lembrando as magistrais procissões de Antunes Filho, mas sem nada dever-lhes ou a
elas atrelarem-se, o grande elenco forma um féretro para acompanhar Clarinha, uma das
filhas dos Drummond recentemente morta. O encontro entre os participantes deste
féretro: o coro dos vizinhos com Dona Eduarda, a mãe e Moema, a filha ocorre com o canto
de Pedaço de mim. A junção da imagem do começo com o canto (que, basicamente, se
caracterizara no leitmotiv da obra) denota a grande obra que se assistirá. Se no texto
original Nelson Rodrigues fala em personagens hieráticas – e do mesmo modo como Antunes
Filho já fizera, desde Paraíso zona norte –, na encenação de Zé Henrique de Paula somamse
a esse caráter hierático, o marmóreo e o grotesco.
Os desenhos de cena são clássicos e requintados. Tudo parece preparado para unir
deslocamentos e enquadramentos da cena às músicas cantadas às interpretação do
conjunto de atores – formado por vinte e um integrantes, preparados competentemente
pelas hábeis mãos de Inês Aranha – no sentido de contrapor-se à fala de Dona Eduarda a
Moema, segundo a qual: “Estar com você é a pior forma de estar sozinha.” Os quatro
atores que fazem os vizinhos, que também correspondem aos corifeus do coro maior: Diana
Troper, Fabio Redkowicz, Paulo Bueno, Thiago Ledier são grotescos, anti melífluos (talvez
por ALEXANDRE MATE
Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo
Nelson Rodrigues dissesse: espécie de câncer na forma de gente...) são belos, sobretudo
Diana Troper.
O magistral trabalho de escolha da trilha e o seu cantar pelos atores do elenco,
entre o climático emocional e determinadas alusões épicas, ficou a cargo de Fernanda
Maia. A seleção das músicas, basicamente amparada em Chico Buarque de Hollanda,
apresenta-se no canto dos atores sempre próximo daquilo que talvez se pudesse nomear:
como uma oitava acima. O canto mostra o paroxismo sufocante da situação vivida pelas
personagens. Realmente, trata-se de um belíssimo trabalho que redimensiona o texto
rodrigueano.
Outro ponto absolutamente destacado é o trabalho de interpretação. Se é sempre
bom ver João Bourbonnais em cena, como Misael e como cantor é melhor ainda. Trata-se
de um grande momento do ator. A jovem atriz Marcella Piccin, tem uma aparência frágil,
mas se agiganta em cena. As cenas entre a filha e a mãe, apresentada por Einat Falbel,
caracteriza-se em um belo duelo: do canto à intensidade dramática. Marcelo Góes
incorpora-se à boa composição do quarteto protagônico, ao qual se soma Paulo Carreira,
também excelente cantor.
Não se sabe se sempre, mas, a partir de certo momento, as personagens aparecem
descalças. As pessoas com quem conversei após o espetáculo, assim como eu mesmo, não
saberiam dizer se as personagens aparecem descalças desde o início... Claro, muito há a
olhar... Moema, depois de todas as mortes acontecidas aparece de traje branco, com
sapatos da mesma cor. O descalçamento dos pés, é seguro, deve conter alguma metáfora,
mas àquela altura (a da percepção disso), parafraseando Drummond: “(...) teu sapato de
diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva
do tempo.”
No geral, tanto Inês Aranha como Zé Henrique de Paula cuidaram de todos os atores:
há unidade e densa mistura de realismo e teatralidade em suas composições. As
prostitutas, entretanto, precisam alguma revisitação. Algumas delas praticam ações que
destoam do caráter clássico a partir do qual a obra foi composta. Algumas prostitutas
relacionam-se algumas vezes de modo meio débil. Para que olhar a roupa de baixo quando
Dona Eduarda é levada para junto delas? Por que duas delas ficam dobrando lençóis ou
coisa assim durante uma cena? Trata-se de ações inúteis, penso! Melhor seria se elas
cuidassem de si: de seu corpo, de suas roupas.
Trata-se de um espetáculo de acertos que toma Nelson Rodrigues para (sub)vertê-lo
buarquiamente. Que o espetáculo consiga ainda muitos espaços de apresentação e muitos
processos de troca com a platéia.
Alexandre Mate
Professor e pesquisador de teatro
26/11/2008
Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo
Crítica dos espetáculos
Espetáculo: SENHORA DOS AFOGADOS
“SENHORA DOS AFOGADOS”
DE NELSON RODRIGUES.
- UM MUSICAL ?
- SIM! UM BELO MUSICAL
Depois que Antunes Filho abriu as portas às leituras várias de Nelson
Rodrigues, retirando-o do modorrento realismo que engessava sua obra, em meados da
década de oitenta, todos os caminhos estão sendo refeitos na procura da estonteante
riqueza do autor.
Senhora dos Afogados, escrito da fase mítica, é atualmente encenada em
várias versões nos palcos paulistas e nacionais. O espectador preguiçoso que tenha
vivenciado a montagem recente realizada no Teatro do SESC, de nosso famoso diretor
Antunes Filho, poderá pensar que não há mais o que retirar das águas caudalosas das
tragédias do autor carioca e muitos menos de Senhora. Ledo engano, reservem seus
ingressos e corram para ver uma nova leitura conceitual de Senhora dos Afogados, agora
em versão musical, assemelhada aos grandes musicais norte-americanos, mas que navega
em novas ondas.
A propositura cênica aparenta ser uma heresia do diretor e cenógrafo Zé
Henrique de Paula apoiado pela diretora musical Fernanda Maia. Afinal tratar o
inconsciente coletivo e os mitos ancestrais no contra-plano da melodia romântica
equilibrada, afasta o repugnante da platéia, como o queria o autor carioca. No espetáculo,
de forma um tanto delicada, apoiados em Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento,
Djavan, a concepção desenha um discurso paralelo que dialoga, contrapontua e harmoniza
com polifônico trágico nacional proposto. Este procedimento diminui as grandes tensões
dramáticas inseridas em ponto maior pelo texto original. Esta perspectiva definida pela
direção fica evidente na interpretação da avó, que apresenta uma loucura um tanto
domesticada ou delicada, se olharmos a intensidade sugerida pela doçura de muitas das
músicas de nossos cantores nacionais. Foge o diretor do grotesco rodrigueano caminhando
por Robson Camargo
Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo
em outras metades. Como nos esclarece o diretor, as dez músicas inseridas acentuam o
“caráter lírico. As músicas atuam como porta-vozes dos desejos e fluxos de pensamento
dos personagens e ganham novos significados quando costuradas à ação dramática". No
estilo brechtiano rompe a cena para acentuá-la, não para estranhá-la, destacando na lírica
cantada as paixões representadas.
Esta história é contada por um competente elenco de 21 atores e atrizes em
cena e se concentra no desabrochar das paixões humanas, se apoiando às vezes
singelamente ainda no universo pictórico do norueguês Edvard Munch, tentando pontuar
uma montagem mais simbólica que expressionista. Não é um grito, é mais o lado
impressionista de Munch. É muito interessante ver sob esse prisma a polifônica obra de
Nelson, apoiada por um elenco de lindas vozes e cantos, numa montagem que acentua as
ações do elenco e estabelece diálogos nunca dantes navegados, com a nossa canção
massificada. Uma interessante montagem que pode ser vista em nosso Festivale. Convido a
todos a perceberem esta correta e instigante montagem de “Senhora dos Afogados” e a
qualidade da interpretação de João Bourbonnais, que inscreve com qualidade mais um
Nelson em tantos Nelsons que cruzam o país. Uma experiência instigante de ser ver, nesta
forma a obra de um grande autor, acompanhados pela linda concepção e pela qualidade da
representação.
Robson Corrêa de Camargo
robson.correa.camargo@gmail.com
Professor da Universidade Federal de Goiás. Encenador e crítico teatral. Doutor em Artes
Cênicas pela USP com o trabalho “ Espetáculo do Melodrama”. Trabalhou na Folha de São
Paulo e Jornal Movimento. Leitor crítico dos espetáculos do Festival Internacional de Rio
Preto (2008). Membro do Conselho Editorial das Revistas Karpa (Califórnia State) e
Moringa (UFPb). Tem publicações nas revistas Gestos, Journal of Beckett Studies, Revista
Fenix, etc. Coordena o grupo Máskara de Pesquisa em Performances Culturais e a
Comissão Assessora de Teatro do MEC/SINAES.
Crítica dos espetáculos
Espetáculo: SENHORA DOS AFOGADOS
“SENHORA DOS AFOGADOS”
DE NELSON RODRIGUES.
- UM MUSICAL ?
- SIM! UM BELO MUSICAL
Depois que Antunes Filho abriu as portas às leituras várias de Nelson
Rodrigues, retirando-o do modorrento realismo que engessava sua obra, em meados da
década de oitenta, todos os caminhos estão sendo refeitos na procura da estonteante
riqueza do autor.
Senhora dos Afogados, escrito da fase mítica, é atualmente encenada em
várias versões nos palcos paulistas e nacionais. O espectador preguiçoso que tenha
vivenciado a montagem recente realizada no Teatro do SESC, de nosso famoso diretor
Antunes Filho, poderá pensar que não há mais o que retirar das águas caudalosas das
tragédias do autor carioca e muitos menos de Senhora. Ledo engano, reservem seus
ingressos e corram para ver uma nova leitura conceitual de Senhora dos Afogados, agora
em versão musical, assemelhada aos grandes musicais norte-americanos, mas que navega
em novas ondas.
A propositura cênica aparenta ser uma heresia do diretor e cenógrafo Zé
Henrique de Paula apoiado pela diretora musical Fernanda Maia. Afinal tratar o
inconsciente coletivo e os mitos ancestrais no contra-plano da melodia romântica
equilibrada, afasta o repugnante da platéia, como o queria o autor carioca. No espetáculo,
de forma um tanto delicada, apoiados em Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento,
Djavan, a concepção desenha um discurso paralelo que dialoga, contrapontua e harmoniza
com polifônico trágico nacional proposto. Este procedimento diminui as grandes tensões
dramáticas inseridas em ponto maior pelo texto original. Esta perspectiva definida pela
direção fica evidente na interpretação da avó, que apresenta uma loucura um tanto
domesticada ou delicada, se olharmos a intensidade sugerida pela doçura de muitas das
músicas de nossos cantores nacionais. Foge o diretor do grotesco rodrigueano caminhando
por Robson Camargo
Festivale - Festival de Teatro do Vale do Paraíba - Fundação Cultural Cassiano Ricardo
em outras metades. Como nos esclarece o diretor, as dez músicas inseridas acentuam o
“caráter lírico. As músicas atuam como porta-vozes dos desejos e fluxos de pensamento
dos personagens e ganham novos significados quando costuradas à ação dramática". No
estilo brechtiano rompe a cena para acentuá-la, não para estranhá-la, destacando na lírica
cantada as paixões representadas.
Esta história é contada por um competente elenco de 21 atores e atrizes em
cena e se concentra no desabrochar das paixões humanas, se apoiando às vezes
singelamente ainda no universo pictórico do norueguês Edvard Munch, tentando pontuar
uma montagem mais simbólica que expressionista. Não é um grito, é mais o lado
impressionista de Munch. É muito interessante ver sob esse prisma a polifônica obra de
Nelson, apoiada por um elenco de lindas vozes e cantos, numa montagem que acentua as
ações do elenco e estabelece diálogos nunca dantes navegados, com a nossa canção
massificada. Uma interessante montagem que pode ser vista em nosso Festivale. Convido a
todos a perceberem esta correta e instigante montagem de “Senhora dos Afogados” e a
qualidade da interpretação de João Bourbonnais, que inscreve com qualidade mais um
Nelson em tantos Nelsons que cruzam o país. Uma experiência instigante de ser ver, nesta
forma a obra de um grande autor, acompanhados pela linda concepção e pela qualidade da
representação.
Robson Corrêa de Camargo
robson.correa.camargo@gmail.com
Professor da Universidade Federal de Goiás. Encenador e crítico teatral. Doutor em Artes
Cênicas pela USP com o trabalho “ Espetáculo do Melodrama”. Trabalhou na Folha de São
Paulo e Jornal Movimento. Leitor crítico dos espetáculos do Festival Internacional de Rio
Preto (2008). Membro do Conselho Editorial das Revistas Karpa (Califórnia State) e
Moringa (UFPb). Tem publicações nas revistas Gestos, Journal of Beckett Studies, Revista
Fenix, etc. Coordena o grupo Máskara de Pesquisa em Performances Culturais e a
Comissão Assessora de Teatro do MEC/SINAES.
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